
O Descanso que Evitamos e Precisamos
- vicclimasousa
- 19 de jan.
- 2 min de leitura
Voltar de férias costuma trazer uma sensação curiosa: o corpo retorna, mas algo dentro de nós parece diferente.
No meu caso, esse período de pausa foi mais do que descanso físico, foi uma experiência que produziu insights importantes, tanto pessoais quanto clínicos.
Na correria do cotidiano, muitas vezes seguimos no automático.
Produzimos, cumprimos horários, atendemos demandas, mas deixamos pouco espaço para o ócio criativo, para o vazio necessário que permite que algo novo emerja.
A psicanálise nos ensina que o sujeito não se constrói apenas na ação, mas também nas pausas.
Durante as férias, estive na praia, na piscina, com amigos e familiares.
Houve jogos, risadas, conversas despretensiosas, comidas gostosas, bebidas, experiências novas, leitura, afeto e acolhimento.
Nada extraordinário e justamente por isso, profundamente significativo.
Esses momentos simples tocaram algo essencial: a possibilidade de estar presente, sem a exigência constante de rendimento.
O descanso permitiu que o corpo desacelerasse e que a mente tivesse espaço para elaborar. Muitas compreensões surgem quando não estamos tentando entendê-las.
Do ponto de vista psicanalítico, o descanso não é fuga, nem perda de tempo. Ele é condição para simbolização.
É no relaxamento das defesas, na diminuição da pressão cotidiana, que sentimentos, pensamentos e desejos podem aparecer de forma mais clara.
Aquilo que estava reprimido ou abafado pelo excesso de tarefas encontra espaço para ser sentido.
Além disso, o contato com o afeto — seja em encontros, risadas ou no simples estar junto — tem função estruturante.
O acolhimento do outro nos lembra que não precisamos sustentar tudo sozinhos.
Há algo profundamente terapêutico em compartilhar a vida de maneira leve.
Volto das férias com mais energia, mas principalmente com mais escuta: de mim mesma e do outro.
A pausa reafirma algo fundamental que também aparece na clínica: cuidar da saúde mental não é apenas lidar com dores, mas também permitir-se viver o prazer, o descanso e o vínculo.
Que possamos, sempre que possível, legitimar nossas pausas.
Elas não nos afastam da vida, elas nos aproximam dela.



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